Hoje acordei e não pertencia ao mundo. Há certos dias em que acordo assim, apático, mas selvagem, e desligo-me da realidade. Não perco a noção do tempo, nem deixo de ouvir o som cruel do caos; está é tudo mais ao fundo, correndo ao meu ritmo, num mundo que nada tem de meu. Acham-me menos simpático nesses dias, menos preocupado; mas até nesses dias dói, só sinto menos.
Ainda não atingi a utopia que é um coração de pedra; não me magoava ao ter esta alma dormente. Sangraria menos quando me dizem, nesses dias onde parece que nunca chego a acordar, que não pareço ser eu próprio. O que me irrita é que poucos sabem quem sou, por detrás do humor, dos sorrisos e da boa disposição. Nem eu sei quem sou.
Sei que gosto de cantar. Sei que vejo na música toda a harmonia que falta ao mundo; o espectáculo sonoro das cordas, os seus contrastes subtis, o batuque incansável dos bombos e os pratos a afagarem os sopros chorados da melodia principal. Sei que se algum dia me apaixonei, foi pela fúria, pela mágoa, pela calma e pela beleza da arte mais perceptível na raiz sentimental do Homem. Mas não tenho a certeza de como a música é ouvida por cada alma nesta epopeia inconclusiva. Não é que eu a oiça melhor, mas definitivamente oiço-a mais alto, visto que, nesses dias em que “não sou eu”, as pessoas parecem sussurrar.
Sinceramente, também não faço por ouvi-las. Dou por mim a cantar, a fixar o nada, e elas também não me ouvem a mim.