Disseram que te ouviram gritar por mim. Foi ainda noutra das noites enevoadas de Outubro, e as gotas de água penetravam a terra como gumes catapultados dos céus. A estrada reluzia sob o fumo matinal, umas horas depois, e as luzes dos poucos carros na rua eram ofuscantemente borradas. Ainda estava eu, no terraço da tua casa, a contemplar o lençol cinzento que cobria a cidade, dentada de prédios. Algumas almas deambulavam pelo passeio, e outras exaltavam-se, correndo freneticamente, ignorantes à leveza que o mundo agora levava. Como eu. Até que o telemóvel tocou.
Disseram que ouviram um grande estalo. Metal e vidro dançavam abraçados, rasgando o ar num leve atormentar, e um grande carro cuspia-te, para completares a coreografia. Devia ser o carro da tua irmã; pelo menos era quando parámos de nos ver. Aterraste no medo de te afogares, naquela água sangrenta de cidade, preta, como os meus olhos te viam agora. E gritaste por mim, ouviram as pessoas. Suponho que ainda sabias o meu nome.
E eu esperei, naquele terraço. Vi a metamorfose da noite, uma bola vermelha erguendo-se majestosamente por detrás da cidade e da névoa. E estava frio. As nuvens dispersavam à minha volta e em meu redor, como se me consolassem do que ainda não sabia. Vi a água escorrer pelos tejadilhos, como uma fonte num dia de Verão, enquanto pensei que ainda iria ouvir esse velho motor. O meu, mal pegava, das semanas passadas sem ti. E quando a manhã chegou, o vibrar alarmante e o tocar da morte agarravam-me destemidamente. E disseram que chamaste por mim, que berraste por mim. E só ai notei que o mundo estava mais leve.
Será que enquanto te afogavas, pensaste que verias a minha mão esticada, à brilhante e calma superfície, para te puxar para cima?
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